quarta-feira, 6 de julho de 2011

O apelo de uma cidade que sofre

De São Cristóvão a todos que acompanham e/ou contribuem com o descaso que me persegue.

Primeiramente, gostaria de me apresentar aos senhores. Todos me conhecem como a “quarta cidade mais antiga do país”. Fui a primeira capital sergipana, fundada por Cristóvão de Barros no dia 1° de janeiro de 1590. Em 1637, fui invadida pelos holandeses e fiquei, praticamente, destruída. Em meados do século XVIII, fui reconstruída e, em 08 de julho de 1820, com o decreto de D. João VI, Sergipe emancipou-se da Bahia e eu me tornei a capital. Anos depois, criou-se um movimento, com o objetivo de transferir a capital para outra cidade que tivesse um porto capaz de receber embarcações de grande porte, para facilitar o escoamento da produção açucareira. Foi então que, em 17 de março de 1855, Aracaju tornou-se a capital sergipana e eu perdi meu nobre título. No entanto, em agosto do ano passado, ganhei outro título importantíssimo. A Praça São Francisco agora é Patrimônio Histórico da Humanidade e não param de chegar turistas para me visitar todos os dias. Fico até tímida com os olhares admirados e flashes que registram, modéstia à parte, toda a beleza histórica e cultural que tenho.

Sem mais, vou direto ao ponto: estou sendo enganada há muitos anos. Pode parecer um tanto óbvia essa minha afirmação, mas faço questão de fazê-la. Os que me conhecem, sabem o quanto venho sofrendo com os gestores que tentam me administrar. Começo por Armando Batalha, que assumiu a prefeitura e não fez tanto quanto poderia. Depois veio Zezinho da Everest, o José Correia Santos Neto, que teve uma gestão muito turbulenta. Zezinho foi vítima de leptospirose e faleceu antes mesmo de cumprir seu mandato. É uma história muito triste, a qual prefiro nem lembrar. Nessa época, o prefeito interino era o Alexsander Andrade, o conhecido Alex Rocha, meu atual gestor. Ou melhor, Alex foi um dos que assumiram a prefeitura, pois não posso esquecer que Carlos Umbaubá também me comandou durante alguns meses.

Enfim, como disse anteriormente, Alex Rocha é o meu atual prefeito. Lembro-me do período de campanha. As pessoas acreditavam que ele seria o único responsável pelo meu avanço. A população estava decepcionada com a falta de respeito e apostou em Alex, o novo, aquele que poderia mudar toda aquela situação. Quanta utopia! Quanto arrependimento! Após três anos de gestão, eu realmente mudei, mas para pior. Ouço reclamações diárias de tudo que há de errado por aqui. Tem gente reclamando da saúde, dos postos que não funcionam e até do hospital que, diga-se de passagem, não existe. Sobre mim, cai o pranto de muitas famílias vítimas da violência que me invade dia após dia, tornando-me uma das cidades mais violentas desse Estado. Minhas ruas estão esburacadas. A poeira das obras inacabadas deixa-me ainda mais velha. Confesso: estou farta de tantos problemas.

E agora, vejam só! Estão me maquiando para o próximo dia 08 de julho. Neste dia, todos estarão comemorando os 191 anos da emancipação sergipana. Também será entregue oficialmente o diploma de título de Patrimônio Cultural da Humanidade. Até Ana de Hollanda, ministra da Cultura, disse que estará presente. Para a solenidade, já estão montando, na Praça São Francisco, uma bela estrutura. Os meus buracos estão sendo tapados com um asfalto que, possivelmente, daqui a mais um mês, terá de ser trocado novamente. As calçadas já foram pintadas e a grama foi aparada. Claro! Acham que a ministra e todos os demais convidados poderiam conhecer minha triste realidade? Não. Está sendo difícil cobrir as mazelas do descaso, mas nada que uma boa cal e alguns retoques não resolvam.

Na verdade, o que eu queria mesmo era não precisar me maquiar tanto para eventos como esses. Eu queria ser bem cuidada, bem administrada. Queria ver minha gente feliz e cheia de orgulho por morar em mim. Infelizmente, não é isso que vejo, mas carrego esse sonho comigo. Por isso, caros leitores, peço a ajuda de todos vocês nessa luta. Não sei mais a quem pedir. Não sei qual autoridade será capaz de fazer algo por mim. Mas peço ao meu povo que não desistam dessa menina. É! Menina mesmo! Não me abandonem, não deixem que escondam os erros e a podridão acumulada durante tantos anos.
Não preciso de maquiagem e muito menos de homenagens. Preciso de mudança e mudança de verdade.
Aqui termino o meu pedido. E se pedir não for suficiente, considerem estas palavras como o apelo de uma cidade que está CANSADA DE SOFRER.

Grata,
São Cristóvão, berço de Sergipe.

Lays Millena
Estudante de Jornalismo na Unit e Letras Português-Espanhol na UFS.

6 comentários:

  1. Belissimo texto Lays, mais, vamos continuar tentanto encontrar um administrador que possa fazer da nossa São Cristóvão uma princesa como ela deveria ser. Nunca desista desse objetivo um dia quem sabe possamos juntos comemorar a evolução da nossa cidade.

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  2. Lays,

    Reitero minha alegria e satisfação, já demonstradas no twitter, pela qualidade, oportunidade e sensibilidade do seu texto. Adiciono, também, a originalidade. No momento em que li, lembrei-me do bom e genial Cleomar Brandi.

    Uma perguntinha, de um esquecido aluno dos ensinamentos da nossa mestre, Ester Mambrini (e que ela me perdoe por esse lapso rsss): o texto é descritivo de 1ª pessoa, ou narrativo, tipo narrador-personagem?

    Seu texto serviria como petição aos nossos ministros do STF, para os quais, qualquer cidadão pode ser jornalista. Você prova que escrever, não é somente "juntar" palavras. Há uma qualidade nata da pessoa, que é lapidada nas academias por mestres como a professora Ester Mambrini. Sua produção textual, certamente, é um tônico e homenagem para ela, além de apelo para que o legislativo federal resgate e corrija a "barrigada" do STF sobre a quebra da obrigatoriedade do diploma para o exercício profissional do jornalismo, que não atenta, em absoluto, contra o direito de expressão de ninguém.

    Parabéns, Lays! As redações esperam por você. E parabéns para a professora Ester Mambrini.

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  3. Querido Edson! Mais uma vez agradeço as suas observações acerca do artigo!Fico feliz porque vejo em comentários como os seus que consegui atingir meu grande objetivo que era dar voz à bela São Cristóvão. Respondendo à sua pergunta, o artigo não é descritivo e também não possui narrador-personagem. Trata-se de um texto narrativo, escrito em primeira pessoa, onde a cidade,personificada, passa a ter voz e faz uma espécie de desabafo.
    Mais uma vez, querido, obrigada pela força!
    Abraços!

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  5. Querido vice-prefeito Cláudio do Sanclau, bom saber que o senhor leu o artigo. De fato, tenha certeza que estou na expectativa de que, um dia, toda essa realidade mude. É lamentável ver uma cidade como São Cristóvão, rica em tantos aspectos, ser maltratada pelas autoridades que por ela já passaram. Agradeço o seu comentário e espero, de verdade, que a nossa "menina" cresça, avance e seja tratada como merece!
    Forte abraço!

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  6. Excelente texto. Parabéns. Trata-se de uma tristeza que acomete a todos que nasceram ou escolheram essa cidade para viver.

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